Comer peixe de forma sustentável

Comer peixe de forma sustentável

O que se passa fora de água tem números muito claros: Portugal é o terceiro país no mundo que mais peixe consome por pessoa (em média, 60,9 quilos por ano), segundo a União Europeia.

Mais de metade do seu consumo é importado e, com mais de 150 espécies diferentes nesta costa atlântica, o consumo centra-se muito nos nomes mais sonantes, como o bacalhau. “É fácil ver o que se passa fora de água, mas debaixo de água é mais complicado”, diz Pedro Bastos, da Nutrifresco, empresa que prefere métodos de pesca sustentáveis e fornece o setor da restauração.

São essenciais opções de consumo mais sustentáveis para manter vivo e saudável tudo o que se passa debaixo de água. Por isso mesmo, deixamos algumas dicas para que possa tornar o seu consumo de peixe mais sustentável, para si, para a sua família e para todo o planeta.

1. CONSUMA APENAS PEIXE QUE PASSA PELA LOTA

Só cientistas especializados conseguem saber o que se passa realmente no fundo do mar. São massas de animais em movimento que precisam de ser estudadas e estes profissionais conseguem auditar a saúde dos cardumes, dos seus habitats, o ritmo a que os peixes crescem. “O sucesso da pesca sustentável depende muito de uma monitorização científica eficaz para que depois se possam aplicar medidas corretivas — aumentar os períodos de defeso (época em que é proibido pescar), por exemplo”, diz Pedro Bastos.

As lotas são espaços onde todo o pescado é registado e contabilizado e só assim pode haver um controlo real do estado dos stocks por parte dos cientistas e do Departamento do Mar e dos Recursos Marinhos (DMRM). É por isso que é importante não incentivar práticas marginais a este circuito, como a compra de peixe de pesca desportiva ou em bancas ilegais. Além disto, o peixe vendido em lota cumpre todas as regras de pesca e segurança alimentar.

2. ESCOLHE PEIXE PESCADO EM PORTUGAL

Há sempre uma pegada carbónica associada a qualquer bem proveniente de outro país ou região. Além do incentivo à economia nacional, comprar peixe pescado nas costas nacionais não implica uma libertação tão grande de gases com efeito estufa (GEE) ou um consumo tão grande de energia no seu transporte.

A quantidade de peixe que entra nas lotas portuguesas é impressionante: mais de 110 mil toneladas em 2020, segundo o Pordata. Há quantidade e há muito por onde escolher.

3. JÁ OUVIU FALAR DO PEIXE-PORCO? PROCURE ESPÉCIES POUCO CONHECIDAS

Há entre 120 e 150 espécies diferentes de peixe a chegarem às lotas em Portugal. “Se acrescentarmos espécies mais raras, chegam às 180 espécies”, afirma Pedro Bastos. Escolher espécies como o peixe-porco, o sarrajão ou, nos Açores, a veja ou o atum gaiado, é uma forma de retirar pressão de stocks de peixes ditos nobres e mais procurados, como a pescada, o robalo ou a dourada.

O que afasta muitas vezes o consumidor destes peixes é, pura e simplesmente, não os saber cozinhar, afirma Pedro Bastos. “Em Portugal, gostamos de peixes grandes e carnudos. As espécies subvalorizadas muitas vezes são pequenas e têm muitas espinhas. E não as sabemos cozinhar. O Peixe-Aranha: alguém sabe como o cozinhar?”, exemplifica.

No caso, a resposta do peixe-aranha é simples: basta fritar. Ir ao mercado, comprar o peixe de nome mais esquisito (normalmente é também o mais barato) e perguntar ao peixeiro como é que se deve cozinhá-lo resolve facilmente qualquer hesitação.

Além disto, comprar espécies menos conhecidas acrescenta-lhes um valor comercial o que é essencial para a sustentabilidade da atividade da pesca. “Para as pequenas embarcações, há grandes discrepâncias entre apanhar um peixe nobre e outro com pouca rentabilidade”, explica Pedro Bastos. O mesmo peso de peixe pode significar lucros muito diferentes, muito baixos se estivermos a falar de cavala ou abrótea. Comprar estes peixes traz rentabilidade e sustentabilidade ao setor e dá-nos a esperança de que continuará a haver peixe nos mares e muitos anos de pesca pela frente.

4. ESTÁ NA ALTURA DE REPENSAR A SUA RELAÇÃO COM O BACALHAU

Mais de metade do peixe consumido em Portugal é bacalhau e o bacalhau não é pescado em águas nacionais. Ou seja, cada vez que prepara ou consome uma das mil e uma receitas portuguesas com bacalhau, está a aumentar a pegada carbónica.

Mas não é só este o problema. Se somos um grande consumidor de bacalhau a nível mundial devemos sentir-nos responsáveis pela pesca intensiva que está a acontecer nos mares do norte, entre a Islândia e a Noruega.

É importante reduzir o consumo deste peixe, sim. Quando o consumimos — até porque, para muitos, seria como acabar com o natal — devemos verificar que tem, por exemplo, o selo MSC. O Marine Stewardship Council é uma organização inglesa que atribui estes selos com base em auditorias independentes e poupa muito tempo ao consumidor na procura de informação sobre a sustentabilidade do peixe nos rótulos. Esta organização avalia o estado dos stocks do peixe em causa, as artes de pesca que são usadas e se são ou não invasivas dos habitats e as regras governamentais do país de proveniência do peixe.

5. LEMBRA-SE DE COMER ENSOPADO DE ENGUIAS? DEVIA SER O SEU ÚLTIMO

Pelo menos nos próximos tempos. Os stocks de enguias nunca foram tão baixos, não só em Portugal, mas no mundo e, segundo a União Internacional para a Conservação da Natureza estão em “perigo crítico”. Por ser um peixe de rio (até à idade adulta) e das zonas costeiras, está especialmente exposto à poluição (esgotos e barcos de recreio, por exemplo). Além disto, é alvo da procura do mercado asiático.

Como explica Pedro Bastos, quando os mercados russo, chinês ou japonês descobrem um ponto de pesca de um produto de que necessitam, a procura é de toneladas e a pressão sobre os stocks é avassaladora. À procura pela enguia podemos juntar o desejo pelo meixão, também chamado “enguias de vidro”. São as enguias no seu estado mais jovem, minúsculas, transparentes e que podem chegar aos 600 euros por quilo. Ora, sem se amadurecerem, os stocks não podem renovar-se.

O site Guia do Pescado, construído pela WWF em parceria com a Associação Natureza Portugal (ANP), ajuda a perceber que espécies de peixe e marisco estão em situações semelhantes à da enguia e, pelo contrário, aqueles que devemos fazer um esforço por comer, como a cavala.

6. PEIXE SELVAGEM OU DE AQUACULTURA? É COMPLICADO…

Há muito a ter em conta. A aquacultura retira pressão dos stocks selvagens de algumas espécies e permite que os peixes cresçam, cumpram o seu ciclo reprodutivo e incrementem os cardumes. Por outro lado, a aquacultura intensiva tem muitos problemas: “descargas de antibióticos, perigos de fuga destas espécies, alimentação destas espécies com a captura de espécies selvagens”, exemplifica Pedro Bastos. Para alimentar peixes carnívoros em aquacultura é necessário pescar outros. Assim, para cada quilo de uma dourada, por exemplo, podem ser necessários quatro quilos de peixe selvagem.

O problema complica-se quando falamos de rações administradas para engordar o peixe rapidamente e sem respeitar os ciclos da natureza. “Um peixe que normalmente cresce em dois anos, atinge o peso ideal em menos de um ano e estas rações alteram o seu sabor e aumentam a sua gordura”, explica Pedro Bastos.

Há, no entanto, bons exemplos de aquacultura, extensivas, em que os peixes crescem ao seu ritmo e se alimentam do que há na natureza. É o caso das “tapadas” do Algarve que existem em algumas zonas de ria. Duas saídas de um canal são tapadas e os peixes crescem nesse espaço delimitado e são alimentados pela renovação natural das águas, sem que o seu produtor os alimente. Nestes casos, não pode haver uma sobrepopulação das zonas de aquacultura para que os peixes e outras espécies não comecem a competir por oxigénio e alimento. Quando falamos de peixe de aquacultura, o melhor é procurar o selo Aquaculture Stewardship Council (ASC), que audita estas produções, e investiga a origem do peixe, já que pode ser difícil encontrar peixe cultivado em Portugal com este selo.

7. SIM, É MESMO MELHOR COMER MENOS PEIXE

A ligação portuguesa ao peixe é óbvia e é forte. Nenhuma outra nação da União Europeia consome tanto peixe por pessoa, por ano, como Portugal e, no mundo, somos o terceiro maior consumidor. Mas há outras estatísticas a ter em conta.

Segundo o Instituto Nacional de Estatística, os portugueses comem quatro vezes mais carne e peixe do que deveriam nutricionalmente. Não é uma mera questão cultural, uma vez que a dieta mediterrânica dá preferência aos vegetais e cereais e apoia-se na frugalidade. Comer menos peixe (e proteína animal, em geral) é uma das atitudes mais simples para começar já a cuidar melhor da biodiversidade dos mares.

Procure encontrar um equilíbrio no seu consumo de peixe e introduza mais variedade no seu cardápio. É bom para si e para o planeta.