Desde que resíduos pode ou não compostar, até como fazer um compostor doméstico, neste artigo respondemos a todas as questões sobre compostagem.

As questões ambientais e a sustentabilidade estão na ordem do dia. E com o objetivo de se chegar à neutralidade carbónica em 2050, há já muitas medidas a serem postas em prática - quer pelos Governos, quer pelos cidadãos comuns - para ajudar a chegar a essa meta. Reciclar, utilizar produtos sustentáveis e reutilizáveis ou optar por energias limpas são já hábitos comuns, mas há outros gestos que podemos tomar. Fazer compostagem é uma delas.

O QUE É A COMPOSTAGEM?

A grande maioria do lixo que produzimos em casa não consiste em embalagens de plástico, papéis ou pacotes, mas sim em resíduos orgânicos. A título de exemplo, estima-se que em Lisboa, por dia, 240 toneladas de lixo comum sejam biodegradáveis. Esse lixo, em vez de ir parar a aterros e estações de tratamento - onde será necessário gastar uma quantidade enorme de recursos para o incinerar - pode ser reaproveitado e reutilizado sob a forma de composto.

A compostagem é um processo simples e natural de reciclagem da matéria orgânica, em que os resíduos são transformados num material semelhante à terra. É um processo biológico, em que os microrganismos presentes nesses resíduos os decompõem e o resultado final é um composto com excelentes qualidades fertilizantes.

As principais vantagens da compostagem doméstica são:

  • Não requer conhecimentos especializados;
  • É um processo simples e fácil de implementar;
  • Tem custos de manutenção reduzidos;
  • Permite reduzir a utilização de fertilizantes químicos
  • O composto melhora a estrutura dos solos;
  • Permite reduzir os resíduos que vão parar aos aterros e incineradoras;

O COMPOSTO

O composto resultante do processo de compostagem é um fertilizante natural, com aspeto de terra, escuro, sem odor e rico em nutrientes. O tempo de produção do composto dependerá, naturalmente, do acompanhamento que é feito ao processo: periodicidade da rega, do revolvimento da pilha de compostagem e controlo da humidade. Já a capacidade nutricional do composto irá depender da qualidade dos resíduos utilizados, mas este tem fungicidas naturais que ajudam a eliminar os organismos patogénicos, que são prejudiciais ao solo e às plantas.

A sua elevada qualidade permite melhorar as características do solo em termos de estrutura, porosidade, fertilidade, capacidade de retenção de água, arejamento e atividade microbiana, diminuindo, consequentemente, a utilização de fertilizantes sintéticos e de água. No final, o composto pode ser utilizado, por exemplo, em hortas e jardins - servindo como cobertura ou incorporado no solo, dependendo das exigências das plantas e da altura do ano - ou em vasos e sementeiras, onde se deve optar por colocar uma parte de composto e duas de terra.

O QUE É QUE SE PODE COMPOSTAR?

De uma forma geral, qualquer material proveniente da cozinha, do jardim ou do quintal pode ser compostado. No entanto, é necessário ter alguns cuidados.

Os dois tipos de resíduos que podem ser compostados são, normalmente, classificados como “verdes” e “castanhos”, de acordo com o teor de humidade e a quantidade de nutrientes: os verdes, ricos em azoto, são geralmente mais húmidos; já os castanhos são ricos em carbono e, por norma, mais secos.

Resíduos verdes:

  • Ervas daninhas sem sementes;
  • Flores;
  • Aparas de relva frescas;
  • Folhas verdes;
  • Restos de frutas e legumes;
  • Borras de café (incluindo os filtros);
  • Folhas e saquetas de chá;
  • Cascas de ovos esmagadas;

Resíduos castanhos:

  • Folhas secas;
  • Relva cortada seca;
  • Palha ou feno;
  • Resíduos de podas;
  • Aparas de madeira e serradura;
  • Carumas;
  • Cascas de batata;

Para que o processo de compostagem decorra da melhor forma possível, convém que estes resíduos sejam diversificados e que os verdes e castanhos estejam presentes em proporções idênticas. Também pode compostar, mas em pouca quantidade, restos de pão e de alimentos cozinhados sem gordura, que devem ser tapados com terra. Pedaços de papel e tecido também podem ir para o compostor, já que são úteis para eliminar o excesso de humidade, mas devem ser igualmente usados com moderação.

O QUE É QUE NÃO SE PODE COMPOSTAR?

Alguns resíduos devem ser evitados na compostagem, já que podem originar pragas, maus odores ou atrasar o processo. Entre os materiais que não devem ser compostados estão:

  • Produtos alimentares como carne, peixe, marisco, laticínios e gorduras;
  • Materiais inorgânicos, como vidro, metal e plástico;
  • Resíduos tratados com pesticidas;
  • Medicamentos;
  • Tintas ou produtos químicos;
  • Cinzas e beatas de cigarros;
  • Excrementos de animais domésticos;
  • Plantas doentes ou infestadas com insetos;

COMO É QUE SE FAZ COMPOSTAGEM DOMÉSTICA?

Ter um jardim ou uma horta é o primeiro passo para conseguir fazer compostagem doméstica. Isto porque este processo, apesar de simples, exige algumas condições indispensáveis. Para começar, o compostor deve ser colocado diretamente sobre a terra e esta deverá ter boa drenagem, para que a água possa escorrer e infiltrar-se nos dias de chuva.

Para além disso, deve estar num local de fácil acesso, ter água próximo e estar protegido do vento e das temperaturas extremas do verão e do inverno (deverá haver sempre uma boa combinação de sombra e sol e, por isso, o sítio ideal para o compostor é abrigado debaixo de uma árvore).

Com o compostor no local certo, pode começar o processo de compostagem, seguindo estes seis passos:

1. Revista o fundo do compostor com ramos grossos. Estes facilitam o arejamento e impedem que o material orgânico fique demasiado compacto;

2. Adicione uma camada de cinco a 10 centímetros de resíduos castanhos, cortados em pedaços pequenos (entre três e sete centímetros), de forma a maximizar a superfície de contacto com os microrganismos;

3. Adicione uma mão cheia de terra ou composto já pronto para garantir o início do processo;

4. Adicione uma camada de resíduos verdes, também cortados em pedaços pequenos;

5. Cubra com mais uma camada de castanhos e vá repetindo o processo até o compostor ficar cheio. Sempre que adicionar uma nova camada, a anterior deverá ser levemente regada, de forma a manter um teor de humidade adequado. As camadas podem ser adicionadas todas de uma vez, ou à medida que vai tendo resíduos disponíveis;

6. A última camada deverá ser sempre de resíduos castanhos, para evitar a proliferação de odores, insetos e outros animais.

Em condições ideais, o processo poderá demorar entre dois a três meses. No entanto, este período varia (podendo mesmo chegar aos seis meses) consoante o tipo de materiais compostados (os verdes precisam de menos tempo), o volume da massa a ser compostada e o tamanho das partículas.

TIPOS DE COMPOSTOR E COMO FAZER UM COMPOSTOR DOMÉSTICO

A compostagem é feita num compostor, um recipiente com características específicas que permitem a colocação da matéria orgânica, a entrada de oxigénio e a fácil retirada do composto. E existem vários tipos de compostor, com diferentes formatos, diferentes capacidades e de diferentes materiais:

  • Cerca: consiste em criar um pequeno espaço cercado (com tábuas de madeira, por exemplo), onde é feita a compostagem;
  • Compostor de madeira: podem ser simples (só com uma caixa), duplos ou triplos, com ou sem porta, totalmente fechados ou com tábuas de encaixar na parte da frente. Os compostores com mais de uma caixa são particularmente úteis, já que se pode encher apenas uma das caixas, utilizando a outra para revolver a pilha e fazer o arejamento;
  • Compostor de rede: consiste em colocar uma rede no quintal ou jardim, formando um espaço fechado. O compostor em rede é bastante prático, uma vez que para revolver a pilha só precisa de desmontar a rede, montá-la um pouco mais ao lado e voltar a encher o espaço;
  • Compostor rotativo: é redondo, fechado e tem uma manivela na lateral, que é utilizada para remexer os resíduos;
  • Compostor de plástico: é o mais comum de todos. É simples de montar, possui uma tampa na parte superior que tem um regulador de entrada de ar para permitir a oxigenação e a humidificação, e tem, ainda, uma porta no fundo para a retirada do composto;

Os compostores podem ser adquiridos em qualquer loja de bricolagem e jardinagem ou, até, oferecidos pelos municípios (verifique junto da câmara municipal ou junta de freguesia da sua localidade se existem programas de apoio à compostagem). No entanto, pode também fazer o seu próprio compostor. Nesse caso, o melhor - e mais fácil - é optar por um em madeira.

Depois de escolher o local (já sabe que a base do compostor terá de estar em contacto com a terra para facilitar a drenagem da água e a entrada de microrganismos), reúna quatro paletes de madeira, pregando três delas pelos cantos, de modo a ficarem perpendiculares umas às outras. Aplique dobradiças na palete que sobra, para fazer uma porta, e feche o compostor. Se o compostor ficar num local muito exposto às condições climatéricas (por exemplo, chuva frequente), pode utilizar uma quinta palete para fazer uma tampa.

QUE CUIDADOS É QUE SE DEVE TER NA COMPOSTAGEM?

O tempo de preparação e a qualidade do composto dependem do tipo de acompanhamento que se dá ao processo. Assim, é necessário ter alguns cuidados, já que há fatores importantes que influenciam a compostagem.

Tamanho dos resíduos

O material a decompor deve ser, primeiro, desfeito em pedaços pequenos, com cerca de três a sete centímetros, de forma a maximizar a superfície de contacto com os microrganismos.

No entanto, se as partículas forem demasiado pequenas, toda a pilha vai ficar compacta, limitando a circulação de oxigénio e água; por outro lado, pedaços demasiado grandes tornam-se difíceis de compostar.

Oxigénio e arejamento

O oxigénio no interior dos materiais a compostar é vital para a sobrevivência e atividade dos microrganismos que desenvolvem a compostagem. Dessa forma, é necessário arejar a pilha uma vez por semana - revolvendo os materiais - para que os resíduos sejam decompostos mais rapidamente e não se formem maus odores.

Humidade

A água é outro elemento fundamental para a sobrevivência dos microrganismos decompositores. O excesso ou a falta de humidade nos materiais orgânicos condicionam a atividade microbiana e, consequentemente, prejudicam a formação do composto.

Uma forma simples de testar a humidade da pilha é realizando o “teste da esponja”: esprema com a sua mão os resíduos que está a compostar; se pingar água, é sinal que a pilha está demasiado húmida. Nesse caso, é necessário juntar mais castanhos e revirar os materiais. Se a mão continuar seca, então é porque há falta de água - é preciso juntar mais verdes, regar e remexer nos materiais; se a mão ficar húmida, então a pilha tem a quantidade adequada de água.

Temperatura

Para uma decomposição eficiente são necessários valores elevados de temperatura. Se não tiver um termómetro, coloque uma barra ou tubo de ferro na pilha e espere alguns minutos. Ao retirar, coloque a mão: a barra deverá estar quente.

PROGRAMAS DE APOIO À COMPOSTAGEM E APPS ÚTEIS

Em Portugal existem já vários programas municipais para promover a compostagem caseira e comunitária. Na zona do Grande Porto, por exemplo, o projeto de compostagem da LIPOR, “Terra à Terra”, tem como objetivo implementar e alargar esta prática em habitações, prédios ou instituições com jardins nos municípios de Espinho, Gondomar, Maia, Matosinhos, Porto, Póvoa de Varzim, Valongo e Vila do Conde. Para participar só precisa de se inscrever no projeto e escolher uma das duas opções disponíveis: na primeira é-lhe explicado todo o processo de compostagem e a LIPOR disponibiliza-lhe um compostor gratuito; na segunda faz apenas o pedido para o compostor.

Já na zona da Grande Lisboa, a Valorsul criou o “Todos podem compostar”, um projeto de compostagem comunitária que já distribuiu vários compostores pela área metropolitana, onde a população pode depositar os seus resíduos orgânicos. Se quiser ter o seu próprio compostor em casa, também é possível. Só precisa de se inscrever no projeto da Valorsul.

Se não quiser investir o seu tempo ou simplesmente não tem possibilidade de fazer compostagem em casa, há outras soluções. A app ShareWaste, por exemplo, permite encontrar pessoas nas proximidades que aceitem resíduos orgânicos para compostagem. Também é possível inscrever-se na app como coletor de resíduos e passar a receber o lixo orgânico de outras pessoas.

Como vê, há várias opções que o ajudam a reduzir a quantidade de resíduos que deita fora, contribuindo para um mundo mais sustentável. Comece já hoje a compostar e junte-se à Geração Zero.