Uma cidade com tudo à distância de 15 minutos

A avó queria muito que ele tirasse a carta de condução e, depois de anos de resistência, lá vai Frederico Rodrigues, todas as semanas, de Benfica ao Campo Pequeno, em Lisboa, para a escola de condução. Mas vai de bicicleta. Como vai para todo o lado.

Nas cidades portuguesas convivem, neste momento, vários meios de transporte — do carro a combustível à trotinete elétrica partilhada — enquanto inovadoras ideias de mobilidade ganham destaque em todo o mundo. Será possível passar apenas 15 minutos no trânsito?

A ideia da cidade dos 15 minutos foi proposta por Carlos Moreno, urbanista e professor da Sorbonne. A proposta é tão simples mas tão revolucionária que este colombiano a viver há 20 anos em Paris tornou-se uma estrela que corre o mundo em conferências e debates. E o que tem ele para apresentar? Um projeto claro: façamos, no nosso dia-a-dia, deslocações de, no máximo, 15 minutos.

Num momento em que o tempo passado no trânsito ou à procura de estacionamento cansa muita gente, e em que a descarbonização é uma emergência, o desafio de Carlos Moreno soa quase a provocação ou a um sound bite utópico. Mas o urbanista garante que é possível e basta-lhe apresentar o caso parisiense. A capital francesa, com que Moreno colabora, tem vindo a aplicar políticas e transformações no mapa de estradas da cidade para que quem vive na cidade prefira deslocar-se a pé ou de bicicleta - a chamada mobilidade suave.

De Benfica ao Campo Pequeno, Frederico, de 26 anos, demora 20 minutos na sua bicicleta elétrica. “O percurso é quase todo por ciclovia, mas quando chego ao Campo Pequeno há um troço por estrada e causa-me alguma ansiedade. As pessoas estão muito focadas em chegar aos seus sítios e não vêem nada que não sejam carros”, conta.

Há cada vez mais ciclistas e mais ciclovias

Tal como em Lisboa e noutras cidades portuguesas, onde nos últimos anos aumentou o número de quilómetros cicláveis e o número de ciclistas, em Paris há cada vez mais quem escolha a bicicleta . Nessa cidade, são 1000 km cicláveis, protegidos dos carros, ou onde o trânsito não pode ser superior a 30 km/h. Entre as zonas exclusivas para bicicleta estão algumas das mais emblemáticas zonas da cidade, como as margens do Sena.

O aumento destas infraestruturas fez disparar em 67% o número de ciclistas - não para passeio, mas para realizar as funções do dia-a-dia: viver, trabalhar, estudar, comprar, divertir-se, ter acesso a serviços de saúde.

A cidade dos 15 minutos não se faz só de ciclovias

Para isto, não bastam as ciclovias e passeios seguros. É preciso que todos os serviços que proporcionam estas funções estejam perto de onde moramos, acessíveis de bicicleta ou a pé. É isso que defende Carlos Moreno: que cada bairro seja rico em atividades culturais e comerciais - além das escolas e hospitais.

A resposta da câmara de Paris a este desafio passou, por exemplo, por abrir os pátios das escolas ao fim de semana para acolherem atividades culturais ou mercados e por comprar espaços comerciais e alugá-los por preços abaixo dos de mercado. Só assim foi possível ter, por exemplo, livrarias em zonas onde o metro quadrado é demasiado alto para este negócio.

Por outro lado, os 800 milhões anuais para o orçamento participativo da cidade ajudam a desenvolver propostas dos cidadãos para os seus bairros e para o financiamento de lojas e serviços locais.

Quando o carro é indispensável

Em Lisboa, Michele Faro demora 15 minutos entre casa e o trabalho. Vive perto de Santa Apolónia, leva a filha todos os dias à escola Luísa de Gusmão e segue para a Avenida da Liberdade, onde é empregada de escritório. Mas não consegue abdicar do carro. “Em 2006, quando nasceu a minha segunda filha, não dava para continuar a usar transportes públicos com um miúdo e uma bebé num ovo ou num carrinho”, recorda.

Desde essa altura abandonou o passe de transportes públicos e, desde a pandemia, a única dificuldade que sente é no estacionamento, chega tarde a casa.

Para Sara Salvaterra, o estacionamento é uma das razões para não escolher o carro, apesar deste veículo ser mais rápido nas viagens para o trabalho - reconhece. Entre a zona do Desterro, em Lisboa, onde mora, e São Sebastião, onde trabalha, demora 20 minutos de carro (na hora de ponta) e 40 se optar pelo metro ou autocarro.

Ainda assim, só escolhe o carro para andar dentro da cidade se sabe que vai sair tarde, por não se sentir segura à noite nas zonas mais descampadas que atravessa para chegar ao metro. “Prefiro ter passe porque é mais económico: não tenho de levar com o stress de andar de carro e teria de pagar o estacionamento. Dá-me liberdade para fazer outras coisas depois do trabalho, sem pensar no estacionamento. E não gosto de conduzir no centro da cidade”, justifica.

Mas nem toda a gente vive na cidade onde trabalha - o que é também um desafio à cidade dos 15 minutos. António Monteiro vive no bairro da Graça mas trabalha em Odivelas. Com trânsito, chega a demorar 50 minutos de carro até ao trabalho. “Tenho passe familiar, mas só o consigo usar em 30% das vezes”, conta. De sua casa ao trabalho demora cerca de uma hora e quinze minutos de transportes públicos e tem de fazer três transbordos, entre metro e autocarro. Ainda assim, “gostava de os poder usar mais”.

No carro, o tempo não é útil, temos de estar com atenção. Nos transportes, dá para resolver coisas, é mais sereno e tranquilo, podemos ir ao telefone ou ler um livro. E é mais saudável: eu nunca espero pelo autocarro, vou andando a pé, à medida da possibilidade”, conta.

O carro fica reservado para os dias em que tem de fazer compras ao final da tarde ou visitar os pais e ver se precisam de alguma coisa. E durante a pandemia, com o teletrabalho, as viagens de carro até ficaram encurtadas - passaram para 30 minutos.

Devíamos todos trabalhar mais perto de casa

O trabalho pode ser, de facto, um entrave à cidade dos 15 minutos como Carlos Moreno a imagina. Poucos têm a sorte de trabalhar no bairro onde vivem, mas o urbanista defende que a pandemia veio mostrar o teletrabalho e as tecnologias como um aliado na qualidade de vida e na redução das emissões ligadas aos transportes.

São estas as grandes motivações na base da teoria da cidade dos 15 minutos. Há metas europeias para cumprir e o tráfego urbano é o grande foco poluente das cidades. Por outro lado, as horas no trânsito afastam-nos da sociabilidade e das relações próximas que podemos construir quando exploramos diariamente o bairro onde vivemos.

É necessário o compromisso de todos

Construir uma cidade dos 15 minutos não é, como se vê, apenas um chavão: exige compromisso das cidades e, para muitos, uma alteração do estilo de vida. No entanto, para alguns especialistas, como Carlos Moreno ou Mathew Baldwin, diretor adjunto da Direção Geral da Mobilidade e Transportes da União Europeia, as metas europeias para a descarbonização não serão atingidas se as cidades não incentivarem a mobilidade suave. A questão ambiental foi uma razão para Frederico Rodrigues comprar a sua bicicleta - mas não a única nem a primeira.

Deslocava-me de transportes públicos e não que o serviço seja mau, mas apareceram mais ciclovias e queria ser mais autónomo. Estive mais ou menos metade do ano passado a deslocar-me com trotinetes e percebi que precisava mesmo da minha”, explica. Concorreu ao apoio da Câmara Municipal de Lisboa e ao apoio do Fundo Ambiental e conseguiu comprar uma elétrica dobrável.

Hoje, o que o preocupa antes de sair de casa é se tem bateria ou se vai chover. Nas aulas de código, na escola de condução, é sempre citado quando se fala de mobilidade sustentável: um exemplo de como as hipóteses para a mobilidade dentro de uma cidade são múltiplas e nem sempre o carro é a opção mais indicada.

Com mais ou menos cuidado com os carros, não há sítio onde não consiga chegar e não deixa de fazer nada por causa da sua companheira. “Dobro-a e ponho-a aos meus pés num restaurante. Quando vou às compras consigo pô-la numa posição específica para me fazer de cesto de supermercado. Como se adapta a quase tudo nunca penso Eish! Vou ter de levar a bicicleta!".

 

"Nos transportes, dá para resolver coisas, é mais sereno e tranquilo, podemos ir ao telefone ou ler um livro.”

 

 

 

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