Moda: aprende a ter um roupeiro mais sustentável

É só um vestido novo, mais uma t-shirt ou o último modelo de jeans. A cada nova estação, a tentação de comprar novas peças de roupa parece renascer. De repente tudo o que faz parte do roupeiro já não agrada, mesmo que só tenha sido usado uma ou duas vezes, e as montras trazem novas tendências difíceis de resistir.

E se antes eram desenvolvidas duas coleções por ano - primavera/verão e outono/inverno - hoje em dia há marcas de fast fashion que chegam a ter 50 mini-coleções ao longo do ano.

Consequentemente, os números não param de escalar: em 2017, a Europa comprou 6,4 milhões de toneladas de roupas novas, o equivalente a 12,66kg por pessoa. Estima-se que, em 2030, sejam compradas 102 toneladas de roupa em todo o mundo. Mas o que é que isto significa para o nosso planeta? Muito.

A indústria têxtil está entre as que mais impacta o ambiente: desde a produção das suas matérias-primas, ao consumo de água, à poluição consequente do tingimento e tratamento dos tecidos, à emissão de CO2 no transporte das peças, aos resíduos produzidos por roupa deitada fora.

Conscientes disto, na Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas de dezembro de 2018, foi lançado o Fashion Industry Charter for Climate Action, onde as empresas da indústria têxtil, de vestuário e da moda - entre as quais gigantes como a Adidas, a Gap, a Inditex e a Burberry - assumiram um compromisso de neutralidade carbónica em 2050.

Então o que podemos fazer para sermos parte da solução e não continuarmos a alimentar o problema? Comprar menos e de forma mais consciente será a resposta mais imediata, à qual se acrescenta aumentar o ciclo de vida das roupas.

RECICLA E REAPROVEITA

A Agência Portuguesa do Ambiente indica que os portugueses deitam 200 mil toneladas de roupa para o lixo todos os anos. Apenas 20% das roupas são recolhidas para reutilização ou reciclagem. Menos de 1% de todos os materiais utilizados no fabrico da roupa, são reciclados para fazer novas peças de roupa.

Costumas comprar roupa em segunda mão? Se não o fazes, experimenta fazê-lo. Seja entre amigos ou em lojas especializadas. Os mitos do passado acerca da higienização destas peças, há muito que não fazem sentido. Esta é a forma perfeita de aumentar o ciclo de vida das peças de roupa e de adquirir peças originais.

Além disto, é importante que procures soluções para as peças que já não usas.

  • Doa a quem mais precisa: associações como a Comunidade Vida e Paz fazem distribuição de roupa pelos sem abrigo, a Ajuda de Mãe aceita roupa para crianças e mães, e as paróquias também costumam aceitar roupa e entregá-la aos mais necessitados
  • Vende aos amigos ou em plataformas como o OLX ou a Vinted
  • Recicla em casa: uma t-shirt velha serve para panos de limpeza, umas calças podem facilmente virar calções, um vestido pode transformar-se num saco para as compras
  • Aproveita as iniciativas de algumas grandes marcas de fast fashion, como o Programa de Recolha de Têxteis da H&M, através do qual recebes um vale de 5€ por têxteis que entregues (mesmo de outras marcas); o Programa We Take it Back da C&A, que encontra uma nova vida para roupa e sapatos usados e em troca dá um cupão com 15% de desconto; ou o Programa de Recolha de Roupa da Zara, que recebe roupa e calçado usados para depois entregar a organizações sem fins lucrativos como a Cáritas, a Cruz Vermelha ou o Exército de Salvação

COMPRA AQUILO QUE REALMENTE PRECISAS

Passaste numa montra e saltou-te à vista um conjunto na cor tendência? Entras na loja com a determinação de o comprares. Ao chegar a casa, abres o roupeiro para concluíres que tens outros dois ou três conjuntos muito semelhantes. Quantas vezes já te viste nesta situação? Há algumas dicas que podem ajudar:

  • Nunca compres por impulso. Se viste uma peça que te apaixonou, não compres de imediato. Vai para casa, pensa bem no porquê de teres gostado da peça em questão, se ela faz sentido no teu roupeiro, se combina com o que já tens ou se te vai obrigar, por exemplo, a comprares sapatos a combinar. Muitas vezes, ao analisar uma potencial compra, vais chegar à conclusão de que não precisas daquela peça
  • Calcula o Price Per Use de cada peça. Um vestido de 60 euros que só vais usar uma vez naquele casamento é claramente um mau investimento em comparação com um vestido de 120 euros que podes usar para trabalhar uma vez por semana
  • Mantém um roupeiro bem organizado, de forma a conseguires ver facilmente tudo o que possuis - desta forma darás uso a todas as peças e conseguirás variar combinações
  • Cada vez mais as estações esbatem-se: opta por peças sem estação e, para o tempo frio, investe em bons casacos
  • Uma camisa branca será sempre uma camisa branca, um blazer preto idem, tal como um fato clássico e de bom corte. Opta por investir em peças intemporais e que sejam facilmente combináveis entre si. Depois, para dar um toque especial a cada visual, investe em acessórios

INFORMA-TE SOBRE O QUE VAIS COMPRAR

Sabes onde é produzida a peça de roupa que vais comprar? Quanto mais próximo de ti for o local de produção, melhor, pois diminui a emissão de gases associada ao transporte. Mais, sabes, por exemplo, se o país de origem promove o pagamento de ordenados justos? Se explora o trabalho infantil? Se despeja a água utilizada para tratamentos de tecidos em rios?

Ser consciente em relação ao que se compra começa em querer saber que tipo de indústria se está a subsidiar.

Depois, procura saber mais sobre o tecido da peça de roupa que ponderas comprar. Lê as etiquetas antes de adquirires seja o que for. Os tecidos não são todos iguais e as suas consequências para o meio ambiente também não. Por exemplo: as roupas feitas a partir de tecidos não biodegradáveis podem ficar em aterros até 200 anos.

informe-te sobre o que vais comprar

E a verdade é que há cada vez mais alternativas, com empresas têxteis de todo o mundo - incluindo Portugal - a explorarem materiais alternativos: é o caso do cânhamo, das urtigas, da viscose à base de madeira, dos resíduos agroalimentares, da fibra de viscose extraída do caule da rosa, da fibra de leite, do bambu, da fibra de banana, da aloé vera ou até das garrafas de plástico.

Além dos materiais, estas preocupações espelham-se, cada vez mais, em toda a cadeia de produção e distribuição, seja em marcas nacionais como internacionais - inclusive grandes cadeias de fast fashion, que procuram alterar algumas das suas práticas, com o objetivo de se tornarem mais sustentáveis.

Afinal, a melhor tendência é a de um roupeiro consciente e mais sustentável!

 

Quando fores comprar alguma coisa, pensa em tudo o que leste aqui e toma decisões mais sustentáveis e informadas. Afinal, cuidar do planeta é uma responsabilidade de todos nós. 

 

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