Há 30 anos a tornar Évora uma cidade melhor

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Susana Serranito não esquece o dia em que teve de retirar a guarda dos três filhos a uma mãe ainda jovem. "Foi um processo que começou às 17h e só terminou à uma da manhã", conta. A mãe tinha vindo para Évora viver numa casa-abrigo para mulheres vítimas de violência doméstica e, entretanto, tinha conseguido ir viver sozinha. Mas não conseguia cuidar dos filhos.

"Ela sabia, eu sabia, mas não deixa de ser uma decisão difícil", explica a assistente social. A prova de que, apesar da dificuldade, esta foi a decisão acertada, chegou duas semanas depois. "A mãe veio agradecer-me o que fiz e os miúdos, que foram entregues a uma instituição, estavam contentes por terem sopa para comer e água quente para tomar banho".

Para Susana, que trabalha há seis anos na ADBES – Associação para o Desenvolvimento e Bem-Estar – em Évora, histórias como esta multiplicam-se todos os dias.

Porta aberta
Embora tenha começado como centro educativo, algo semelhante a um espaço de ATL (Atividades de Tempos Livres), a ADBES serve agora toda uma comunidade. Esta IPSS (Instituição Particular de Solidariedade Social) fica no bairro social Cruz da Picada, mesmo à entrada de Évora, conhecido pela problemática da exclusão e do desemprego.

A associação "foi criada por um grupo de professores que percebeu que os miúdos de etnia cigana não iam à escola", conta Susana. Como o objetivo era que passassem a ter um refúgio, o centro sempre funcionou em sistema de porta aberta.

"Não há inscrição, marcação de entradas e saídas nem pagamentos. As crianças entram e saem quando querem", refere a assistente social de 38 anos, que acumula também funções de coordenadora do espaço.

Utentes e apoios
Ao longo dos anos, o bairro passou a ter moradores de todas as idades e classes sociais, empregados, desempregados, licenciados e reformados. Por isso, além de continuar a apoiar crianças em idade escolar, a ADBES tem um centro de apoio para jovens dos 14 aos 30 anos. Ao ganho de pessoas não correspondeu um aumento de apoios, pelo contrário. "Tendo em conta que tudo aqui é gratuito – com excepção da creche e jardim-de-infância, sujeitos a uma mensalidade consoante o IRS dos pais – apoiávamo-nos muito em projetos e financiamentos que deixaram de existir", explica a responsável.

Hoje, o apoio vem da Segurança Social e, pontualmente, da câmara municipal e junta de freguesia. Fornecer os pequenos-almoços e lanches às crianças deixou de ser possível. E é mais difícil "levá-los a passeios e a campeonatos fora da cidade", de onde chegaram a trazer algumas taças, como no futebol de rua e dança cigana, recorda Susana.

Criada há 30 anos, a ADBES disponibiliza à comunidade 5 respostas sociais: creche, jardim-de-infância, ATL, centro de jovens e centro comunitário

Do lazer ao empreendedorismo
Apesar das limitações, as 90 crianças que frequentam o centro têm direito a apoio escolar e usufruem de várias atividades. Vão à piscina municipal duas vezes por semana, podem praticar ping-pong, badminton, matraquilhos e visitam museus com frequência, além de terem sempre internet e PlayStation disponíveis. Já os mais velhos podem optar por laboratórios de fotografia ou workshops e ateliers de ambiente, reciclagem ou preservação animal.

"Este centro tem até uma vertente de empreendedorismo", salienta Susana, referindo-se ao facto de terem sido um dos vencedores do Programa Escolhas – criado para promover a inclusão social de crianças e jovens de contextos socioeconómicos vulneráveis. Na sequência dessa vitória, os jovens criaram um projeto de reciclagem no qual os participantes conseguiam angariar algum dinheiro. "Distribuíram contentores pela cidade onde as pessoas deixavam pequenos eletrodomésticos. Faziam a recolha, arranjavam o que era possível arranjar e o que não tinha solução era desmontado e vendido às sucatas", explica a coordenadora.

Função vital
Além desta vertente educativa, o centro nunca fecha portas a quem precisa de ajuda, por exemplo, para fazer um curriculum ou preencher o IRS. "As pessoas sabem que aqui o serviço é gratuito, livre de burocracias e feito por quem sabe", sublinha Susana. Entre assistentes sociais, professores, educadores de infância, administrativos, auxiliares de educação e sociólogos, trabalham atualmente no centro 25 pessoas.

Susana trabalha no centro comunitário, onde faz atendimento às famílias, distribui roupa e alimentos e coordena o balneário social. Este é núcleo mais recente da ADBES, que conta já com onze anos de atividade. Não sendo o primeiro trabalho de Susana como assistente social, este é no entanto, o mais especial. "Aqui somos vizinhos dos moradores, não existem seguranças nem gabinetes fechados", justifica. E garante: "Foi assim que começámos e é assim que vamos continuar".

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Os clientes da Comunidade EDP têm oferta da taxa de inscrição na creche e jardim-de-infância

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